comunidades de prática (lave e wenger, 2002), pertencimento (abeledo 2007; schegloff, 2007) e cognição socialmente compartilhada (schegloff, 1991, 2006): o anúncio das escalações dos times nos jogos de futebol

adoro ir aos jogos do gremio. adoro mesmo. também adoro estudar interação social. adoro muito mesmo. acho muito interessante estudar o resultado dos esforços feitos pelas pessoas para juntas fazerem coisas de modo coordenado. como adoro essas duas coisas, é inevitável não associar uma à outra.

 

tem algo de especial que chama muito a minha atenção em relação a o que os torcedores do grêmio (e acredito que de diversos outros times também) fazem no estádio conjunta e coordenadamente. uma dessas coisas diz respeito á organização da interação entre torcedores e aqueles responsáveis por dar informações à torcida por meio do sistema de som do estádio. mais especificamente, acho muito legal ao modo como os torcedores reagem ao anúncio da escalação dos dois times. essa reação toda feita por cada um dos participantes do estádio membros da torcida gremista de modo conjunto (todos juntos), coordenado (cada um faz a coisa ao mesmo tempo que o outro, ou seja, em coordenação) e organizado (essa reação não acontece do nada, mas sim em um determinado momento do evento após uma determinada ação feita pelo cara do sistema de som) é uma prática (uma atividade, uma ação) que é constituinte do pertencimento desses participantes na comunidade de gremistas que vão ao estádio olímpico monumental nesse evento que é o jogo de futebol.

 

lave e wenger (2002) falam justamente sobre isso: o que faz de uma pessoa pertencente ou não a uma determinada comunidade de prática? a resposta: as práticas em comum por elas feitas – no caso desses gremistas que vão ao estádio, um exemplo é as reações conjuntas, coordenadas e organizadas após a escalação de cada um dos times.

 

quem vai ao estádio com freqüência já deve ter reparado nisso. sempre alguns minutinhos antes de os times virem a campo o sistema de som avisa nessa ordem: “banrisul informa: escalação do time X (time visitante)”, “banrisul informa: escalação do time do grêmio” e “arbitragem”. buenas, quando o sistema de som anuncia “banrisul informa: escalação do time X (time visitante)” antes mesmo de terminar a fala as vaias já começam. e começam forte. muito forte. o volume da voz é meio baixo e a entonação é meio “flat”. o meu ponto é que o fato de os torcedores começarem a vaiar antes mesmo do fim da fala (as vaias começam meio que no “banrisul informa”) é uma evidência de que 1) a escalação do outro time ser dita antes é ritualística, no sentido de acontecer em um mesmo momento SEMPRE (bem como o “pode beijar a noiva” num casamento), 2) a vaia ao time adversário é a ação relevante a ser feita após tal anúncio, de modo que anúncio da escalação do time adversário e vaia seriam uma espécie de pás adjacente, 3) vaiar a escalação do time adversário é uma prática constituinte do pertencimento àquela comunidade de prática, gremistas que vão ao estádio e 4) já que a vaia não acontece ANTES do início de “banrisul informa”, pode-se dizer que o os torcedores, ao ouvirem o início dessa fala e terem a mesma reação dão uma demonstração de um mesmo entendimento em relação a o que deve ser feito após o anúncio da escalação do outro time, sendo essa convergência de entendimentos um momento de produção de cognição socialmente compartilhada entre milhares de pessoas.

logo após o término da escalação do time adversário (marcada pelo anúncio do nome do técnico adversário – que acontece, por sua vez, após o anúncio dos nomes dos jogadores) a torcida já começa a gritar e aplaudir, e o sistema de som anuncia em volume alto e entonação ascendentíssma: “BANRISUL INFORMA: ESCALAÇÃO DO TIME DO GRÊMIO”. e há muitos gritos e aplausos contínuos. o cara do sistema de som só começa a anunciar o primeiro nome após o cessar de aplausos e gritos. após cada nome há aplausos aos jogadores. a intensidade dos aplausos e gritos varia de acordo com o momento em que o jogador (e técnico) se encontra. novamente, a escalação do time se encerra após o anúncio do nome do técnico (que no momento tem sido bem aplaudido e tal). e então vem o anúncio da arbitragem: SEMPRE vaiada.

 

para vaiar o outro time, aplaudir o do grêmio e vaiar a arbitragem ninguém fala nada pro outro: essas ações são simplesmente feitas com base em um entendimento compartilhado de como se fazem coisas naquele evento naquele exato momento ritualístico. as pessoas confiam em suas experiências como participantes desse evento para agir e fazer coisas. seria legal observar uma criança indo ao estádio pela primeira vez para ver como ela se dá conta que essas ações devem ser feitas para que ela participe daquela comunidade e em que momento exatamente ela começa a vaiar, aplaudir e vaiar.

 

de qualquer modo, espero que hoje de tardezinha a torcida gremista lote o estádio e faça todas essas práticas aí bem direitinho pra ajudar o time a ganhar mais uma para no mínimo manter a distância em relação aos demais convidados…

Lave, J., & Wenger, E. (2002). Legitimate peripheral participation in communities of practice. In M. R. Lea & K. Nicoll (Orgs.), Distributed learning: Social and cultural approaches to practice (pp. 56-63). Londres: Routledge.

Schegloff, E. A. (1991). Conversation analysis and socially shared cognition. In L. Resnick, J. Levine, & S. Behrend (Orgs.), Perspectives on socially shared cognition (pp. 150-171). Washington, D.C.: American Psychological Association.

Schegloff, E. A. (2006). On possibles. Discourse Studies, 8(1): 141-157.

Schegloff, E. A. (2007). A tutorial on membership categorization. Journal of Pragmatics, 39, 462-482.

 

 

 

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2 Respostas to “comunidades de prática (lave e wenger, 2002), pertencimento (abeledo 2007; schegloff, 2007) e cognição socialmente compartilhada (schegloff, 1991, 2006): o anúncio das escalações dos times nos jogos de futebol”

  1. gabriel Says:

    eh vero. mas acho improdutivo todo esse alarde, pq a essa hora os jogadores e arbitragem sequer estao em campo pra ouvir.

  2. Paola Says:

    sim sim… mas minha análise é de que isso n tem a ver muito com a produtividade. o ponto é que essas coisas todas são constituintes do trabalho de ser gremista naquele ambiente. mas… aqui entre nós: será que eles n ouvem do vestiário nadinha inha inha??

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